quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fan-fic do Hulk bem curtinha

Quando conheci o Bruce ficou a impressão não de um homem, mas de uma casca de árvores sendo levada pelo vento. O corpo miúdo de passos hesitantes, o rosto que pareceu nascer velho, com as rugas de mil preocupações e mil remédios. Mal saído da adolescência já era perito na hipocondria. “ Se hoje fizer sol, minha pressão vai abaixar. O remédio para pressão me ataca o estomago, o remédio do estômago não permite que eu coma direito, se eu não comer direito, vou ter que tomar o remédio para irritação da mucosa...” e assim ia.
Porém, quando o colocavam para resolver aquelas equações, ele se transformava. O giz parecia tomar vida entre seus dedos e o universo se decodificava como fosse um brinquedo. Não demorou pros militares ficarem de olho naquele potencial todo e tão logo ele se formou o enfurnaram em bases secretas pelo país, pelo que soube. O vi durante o mestrado e o doutorado, pois optei pela vida acadêmica e vi que o público nunca seria uma de suas qualidades. Apenas uma vez o convidei para ministrar uma palestra. Embora o assunto fosse interessante e Bruce o dominasse plenamente, eu digo, foi a coisa mais chata que eu vi na vida. A voz dele parecia ter um só tom, uma só modulação no mesmo ritmo arrastado pelas três horas mais longas que aqueles alunos já passaram.
Sobre o famoso “outro lado” do Bruce, só soube pelos jornais. Minto. Tive um deslumbre de que havia algo nele quando estávamos no segundo ano da faculdade. O Bruce se apaixonou por uma moça, Barbara Beakovitz. Nós éramos apenas dois nerds e não sabíamos como chamar a atenção das garotas. Certa noite, nós, os Caxias da sala ficamos conversando sobre como “chegar” nas moças e alguém falou em tomar uns drinks para tomara coragem.
Fomo no barzinho, onde a Barbara estaria e começamos a beber. Eu, com duas cervejinhas, já estava alto, pois era apenas um garoto. Mas o Bruce não. Começou a beber como um maníaco, talvez uísque ou vodka. E então completamente bêbado foi falar com a moça. Não sei o que ele disse, mas ela o empurrou assustada. Então ele gritou. Não era palavra alguma, apenas um urro. Jack Kahn, o quarterback que namorava a Barbara empurrou o pobre Bruce, para que ele saísse dali. O Banner, que não pesava nem 50 quilos, tentou socar o Jack que lhe deu um tapa. Assim mesmo, de mão aberta e o Bruce voou longe. Então ele, sem se levantar olhou Jack e Barbara. E então eu vi o Hulk naquele olhar. Sério. Não era apenas o orgulho ferido de um adolescente fracote ou a raiva imposta pelo álcool. Ali havia um ódio mais puro, apenas esperando o momento certo para explodir.

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