A realidade está envolta em plástico-filme
E seus sons, cheiros e cores me nauseiam
A realidade está guardada na geladeira
E o prazo de validade expira logo
Pudera eu a consumir (ser consumido?)
Mas meu eu é puro fastio
E não reconhece
nisto o alimento
E deixa o corpo num jejum sem dores
Ou heroísmo, apenas um leve cansaço
De quem lutou, ganhou e perdeu, todavia
Continua exatamente o mesmo
Estrangeiro
Só até no seio dos mais íntimos
Sempre uma ponta de desentendimento
Dentre os cotidianos o ausente
Máscara sobre máscara sobre máscara
Nem no espelho mais o rosto
Camuflado em meio às multidões
O observador perfeito, olhar
Que não interfere
O menino roto sentado a beira da estrada
Nada vende, não pede carona, a ninguém espera
Sentado a beira da estrada ( onde mais estaria?)
Passam caminhões, carros, bicicletas e gente
Gente, algo raro nestes dias......
Apenas sentado
Vê o veloz corvette a erguer poeira
Que cai quase no mesmo lugar
A continuar poeira
Mesmo que passem dez mil carros
Apenas sentado.